Um Jorge para chamar de Seu

Irrequieto é o adjetivo que melhor pode definir Jorge Mário da Silva, mais conhecido pelo apelido dado pelo amigo Marcelo Yuka: Seu Jorge. “Seu”,  como pronome de tratamento, contração de senhor, mas que ganha contornos de intimidade em pronome possessivo, diante da doação deste músico à sua arte e ao seu público.

Irrequieto, ele é no palco que ocupou com maestria no Oi Futuro Ipanema na sexta e no sábado dentro de seu projeto em conjunto com a banda Almaz, formada por músicos do Nação Zumbi.

Mais que isso. Irrequieto ele é na vida. Daria aqui para falar de sua determinação no início da carreira, que o fez ser escalado por Paulo Moura para um musical, depois de viver três anos como sem teto pelas ruas do Rio de Janeiro. Mas este blog não quer entrar nos aspectos biográficos de sua trajetória entre a Baixada e o estrelato,  apenas refletir sobre a inquietude musical do meu, nosso, Seu Jorge.

Início brilhante no Farofa Carioca, passagem estelar pela Orquestra Imperial, uma brincadeira de amigos, e um tropeço para os críticos quando buscou parceria com a pop Ana Carolina. Seria mais fácil que ele tivesse se refugiado no afago da mídia e aconchego dos fãs, e continuasse a brindar a música brasileira com sambarocks samabasouls inspirados como São Gonça, Carolina e Tive Razão, ou outras menores, como a Burguesinha.  Épocas de Mané Galinha, em que ele começou a mostrar sua veia de ator.

Mas aí falou mais alto o poder do querer mais, e mais do que o mais, o diferente. Fez filme no exterior, estudou música, percorreu mundos. Brincou de superstar e agora em seu retorno ao Brasil, maduro e inteiro, brinda seu país com performance impecável junto ao que se pode chamar de melhor quadro musical do cenário nacional, formado pelos feras da nação.

O repertório vai de Michael Jackson, Kraftwerk, Marvin Gaye e David Bowie, a (pasme) Vinicius de Morais, Noriel Vilela, Martinho da Vila e uma Tribo Massai, reminescente da era dos antigos Festivais, que dá o tom do hit que deverá ser trabalhado no disco: Pai João.

Já dá para imaginar o que será o caldeirão do Circo Voador, quando ele cantar este hit “tira-o-pé-do-chão” no próximo dia 26 de março. Eu compraria já o ingresso para evitar ficar de fora como muitos dos que não conseguiram garantir os poucos convites de convidados distribuídos pela Oi nestas primeiras apresentações do disco no Brasil

Do show, pouco dá para se dizer além do esperado superlativo comentário de que encontro é uma conjunção astral privilegiada entre o “feiticeiro das cordas”, “ilusionista da guitarra”, Lucio Maia, em definição do próprio Seu Jorge, acompanhado de uma bateria impecável e toques de maracatu de Pupilo, com o endiabrado Alexandre Dengue, e o supreendente e preciso Gustavo da Lua na Percussão. Isso tudo cerceado por uma mesa de som cheia de efeitos bacanérrimos na voz retumbante do mestre.

Seu Jorge, por sua vez, além do “carisma” delirante que preenche todos os espaços do palco e leva a loucura a platéia feminina a cada volteio, tem domínio completo do corpo e das expressões faciais ao passear  teatral e magistralmente pelos personagens que cria na mente para interpretar cada canção. Por fim, exibe performance única atrás de sintetizadores, flauta e até um inusitado mini trompete que ele diz que “não toca, apenas enrola”.

Digo “diz”, porque mestre Jorge, depois de nos presentear com seu balé malandro-matreiro, entre goles de cerveja no palco, que deixavam a plateia sedenta, foi tomar chope ali do lado da casa de espetáculos, num boteco das cercanias, onde estavam os blogueiros do Andaraí tergiversando sobre as surpreendentes viradas de guitarra, efeitos de voz e demais diabrites que tinham acabado de ver no palco… Coisas de Ipanema… Coisas do Rio… Coisas de Jorge.

Na calçada do bar semi fechado, entre a água e sabão que corriam sob seus pés e para uma plateia de quatro fãs extasiados, e mais dois companheiros, faz mais um show, e apresenta só no gogó, as canções que compôs para um novo projeto, o “Música para Churrasco – Volume 1”, que sai em agosto.  (anote aí!)

São microcontos de personagens que ele coleciona, reais e inventados. Estão lá uma japonesa, uma vizinha, o companheiro, a dona doida, entre outros. “São figuras que eu cruzo por aí”, diz o antropólogo musical, nosso “companheiro” de bar por uma noite. Irrequieto por natureza, ávido por novidades.  Impávido com o sucesso. Este cara é para chamar de “Seu”.

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